
Há uma famosa frase de impacto que diz que “A história se repete como farsa”, entretanto, no caso de uma rivalidade pesada entre Brasil X Uruguai, a história não precisa repetir necessariamente o mesmo roteiro, já que, bastam gatilhos do passado serem acionados para que tudo vire arma poderosas nas mãos de secadores.
Nesta sexta-feira (26) o Uruguai entra em campo para decidir seu futuro na Copa do Mundo diante da Espanha e precisa da vitória para se manter na segunda colocação do Grupo H e passar sem sustos para a próxima fase. Entretanto, no duelo entre colonizadores e colonizados, que dá um tom histórico ao confronto, o embate também proporciona ao Brasil o elemento que desperta fantasmas do passado, como um artifício para secar a sempre mística e complicada Celeste Olímpica.
Isso porque o Uruguai encara os espanhóis na cidade de Guadalajara, mesmo local onde em 1970 a Seleção Brasileira exorcizou o seu maior drama no histórico do torneio. Naquele ano, Brasil e Uruguai se enfrentaram pela primeira vez em uma Copa, após a derrota de 1950, quando o Brasil deixou escapar o que seria o seu primeiro título Mundial no Maracanã.
No famigerado Maracanazo, Ghiggia calou 200 mil pessoas, em um estádio que já mirava a primeira conquista da Taça Jules Rimet. Vencendo por 1 a 0, com gol do atacante do Vasco, Friaça, a festa parecia certa, até que a remontada uruguaia virou o placar para 2 a 1. O silêncio implacável e desolador, que jamais se viu no então recém inaugurado Maracanã, mesmo em tempos futuros, traduziu não só o trauma da catástrofe, como também projetou um estigma nefasto, tanto para Barbosa, goleiro culpado de forma injusta, como para as futuras gerações, que conviveram com tal fantasma, até um certo Rei entrar em cena.
Ele mesmo, Pelé, o Eterno camisa 10, vinte anos depois, se viu com a missão de liderar o Brasil em uma decisão de semifinal de Copa, justamente contra a Seleção que o fez ver seu pai chorar, diante de um rádio que narrava cada ato dramático da derrota em 1950. No mitológico estádio Jalisco, em Guadalajara, a equipe comandada pelo técnico Zagallo enfrentava o Uruguai sabendo que, além da catimba tradicional, o adversário usaria o artifício do passado como elemento perturbador, no psicológico da Seleção Canarinho.
E surtiu efeito, em um primeiro tempo irreconhecível do Brasil, o Uruguai se impôs, com uma postura extremamente provocativa e violenta, buscando desestabilizar os brasileiros. A arma tática era inequívoca: o fantasma do Maracanazo.
O Uruguai tentou tirar Pelé do sério com faltas duras, mas o Rei manteve a calma e usou o mesmo tom: respondeu em campo com uma cotovelada histórica em Fontes. A arbitragem não viu e o lance não teve punição. Mesmo saindo atrás no placar, a Seleção Brasileira não se abalou com a catimba e lances memoráveis da atuação do Brasil são admirados até hoje, como o gol que Pelé perdeu depois de aplicar uma finta de corpo magistral, sem tocar na bola, sobre o goleiro Mazurkiewicz
Com gols de Clodoaldo, Jairzinho e Rivelino, o Brasil virou o jogo com autoridade e carimbou a vitória por 3 a 1. Ali, estava decretado o fim de uma angústia e um complexo de inferioridade perante aos vizinhos da América do Sul. Ao espantar o fantasma de 1950, o Brasil pavimentou o caminho para encarar a Itália, em uma final de Copa do Mundo onde arte e esporte se confundem.

Passados 56 anos, embora o portentoso Jalisco não seja o palco para a partida do Uruguai contra a Espanha, a cidade é a mesma, assim como os olhares turbinados dos secadores que jamais esqueceram um capítulo dolorido para o Brasil no esporte. Contudo, nesse tradicional ato de vingança eterna, a arma dos que jogam suas zicas para o Uruguai segue a mesma do rival, porém, com outro nome: O fantasma de Guadalajara.
