Ancelotti encontra identidade do Brasil e vai forte para mata-mata

Matheus Cunha e Vini Jr comemoram gol do Brasil diante da Escócia
© IMAGO/Marty Jean LouisMatheus Cunha e Vini Jr comemoram gol do Brasil diante da Escócia

A classificação do Brasil para a próxima fase da Copa do Mundo veio acompanhada de algo que Carlo Ancelotti buscava desde sua chegada: uma identidade coletiva cada vez mais visível.

A vitória por 3 a 0 sobre a Escócia, nesta quarta-feira (24), em Miami, garantiu a liderança do Grupo C e mostrou uma Seleção mais organizada, agressiva sem a bola e confortável para controlar diferentes momentos da partida.

É verdade que os erros defensivos escoceses tiveram papel importante no resultado. Os dois gols de Vinicius Júnior nasceram de roubadas de bola em zonas avançadas do campo. Mas reduzir a atuação brasileira às falhas do adversário seria ignorar justamente o principal mérito da equipe: a forma como a pressão foi coordenada para provocar esses erros.

Pressão brasileira sufoca Escócia e deixa ações mais tranquilas

O Brasil sufocou a saída de bola escocesa desde os primeiros minutos. Aos sete, Rayan pressionou o zagueiro dentro da área, recuperou a posse e deu início à jogada que terminou com Vinicius driblando o goleiro para abrir o placar.

Já nos acréscimos da primeira etapa, Matheus Cunha e Danilo repetiram o movimento de pressão ofensiva, recuperaram a bola e permitiram que Bruno Guimarães encontrasse novo passe decisivo para Vini marcar novamente.

Foi a representação mais clara da principal característica implementada por Ancelotti até aqui: uma equipe capaz de defender longe do próprio gol, recuperar a bola rapidamente e acelerar as transições.

Brasil cresce com e sem a bola na Copa

Sem a posse, o Brasil se organizou em um 4-4-2 bastante compacto. Lucas Paquetá ocupava o lado esquerdo do meio-campo para compensar a menor participação defensiva de Vini Jr, enquanto Bruno Guimarães e Casemiro protegiam a zona central. A estrutura permitiu à equipe recuperar bolas em setores avançados e impedir que a Escócia construísse jogadas com qualidade.

Brasil produziu melhor atuação tatica e tecnicamente na Copa e fez 3 a 0 nos escoceses – Foto: Getty Images

Brasil produziu melhor atuação tatica e tecnicamente na Copa e fez 3 a 0 nos escoceses – Foto: Getty Images

Com a bola, o desenho mudava constantemente. Matheus Cunha recuava para atuar como um meio-campista adicional, Bruno e Paquetá ocupavam os meios-espaços e Vinicius se aproximava da área como segundo atacante. Em muitos momentos, a equipe assumia uma estrutura próxima de um 3-1-4-2, com Douglas Santos dando amplitude pelo lado esquerdo e Danilo atacando os corredores pela direita.

A movimentação ofensiva confundiu a marcação individual escocesa, estratégia que já havia sido explorada com sucesso diante do Haiti. Não por acaso, Ancelotti optou por Rayan novamente. O jovem atacante oferece exatamente o perfil necessário para enfrentar equipes que pressionam individualmente: velocidade, força nas diagonais e capacidade de atacar os espaços deixados pelos defensores.

O camisa 21 correspondeu. Além da participação direta no primeiro gol, foi peça importante na recomposição defensiva, pressionou a saída adversária durante toda a partida e deu profundidade ao lado direito do ataque brasileiro.

Matheus Cunha e os coadjuvantes que fazem o Brasil evoluir

Outro destaque foi Matheus Cunha. Atuando praticamente como um híbrido entre centroavante e meio-campista, participou da construção das jogadas, ajudou na marcação e foi fundamental para conectar os setores da equipe. Sua mobilidade permitiu constantes trocas de posição com Rayan e abriu espaços para as infiltrações de Vinicius.

Bruno Guimarães também apresentou sua melhor atuação na competição. Depois de encontrar dificuldades contra Marrocos, quando precisou iniciar as jogadas desde a defesa, o volante voltou a atuar mais próximo da área adversária, cenário que potencializa sua capacidade de encontrar passes decisivos e atacar espaços entre linhas.

Bruno Guimarães tem sido importante no meio-campo e de forma silenciosa – Foto: Dan Mullan/Getty Images

Bruno Guimarães tem sido importante no meio-campo e de forma silenciosa – Foto: Dan Mullan/Getty Images

Na defesa, Douglas Santos manteve o alto nível demonstrado desde a estreia. Seguro nos duelos individuais, eficiente nos apoios e equilibrado taticamente, o lateral se consolida como um dos jogadores mais consistentes da Seleção nesta fase de grupos.

A Seleção, assim como havia acontecido diante do Haiti, reduziu a intensidade na etapa complementar, mas em nenhum momento perdeu o controle da partida. A Escócia teve mais posse em determinados trechos do segundo tempo, porém encontrou enormes dificuldades para transformar isso em oportunidades reais. Alisson foi praticamente um espectador do jogo, cenário bem diferente daquele visto na segunda rodada da competição.

O Brasil demonstrou maturidade para administrar a vantagem. Em vez de acelerar todas as ações ofensivas, a equipe passou a circular a bola com paciência, atraindo a marcação adversária e esperando o momento ideal para atacar os espaços. A sensação era de um time que sabia exatamente quando acelerar para liquidar o confronto.

Neymar e Endrick em ação por poucos minutos

E esse momento surgiu aos 15 minutos da etapa final. Casemiro encontrou Bruno Guimarães com um lançamento preciso, o volante avançou pelo corredor central e serviu Matheus Cunha, que apareceu infiltrando pela direita como elemento surpresa. O camisa 9 invadiu a área e finalizou rasteiro para ampliar a vantagem brasileira.

O lance resumiu uma das principais virtudes do atual momento da Seleção. Mais do que os gols ou assistências, Matheus tem sido fundamental pela capacidade de conectar setores do campo. Seu jogo de ligação, a inteligência para ocupar espaços e a dedicação sem a bola fazem dele uma peça-chave no sistema de Carlo Ancelotti. Contra a Escócia, entregou talvez sua atuação mais completa com a camisa da Seleção Brasileira.

Deu até tempo de Neymar e Endrick entrarem em campo no fim da partida. O camisa 10 do Brasil teve seus primeiros minutos neste Mundial, porém de produtivo, o atacante do Santos pouco acrescentou.

Conclusão de uma noite impecável da Seleção Brasileira

Por isso, a classificação às oitavas representa mais do que a soma de resultados positivos. Pela 1ª vez na Copa, o Brasil transmite a sensação de que existe uma identidade consolidada em formação.

Com Vini Jr decisivo, Matheus Cunha vivendo grande fase e um modelo de jogo cada vez mais assimilado pelos jogadores, Carlo Ancelotti começa a enxergar no campo a equipe que imaginava construir desde o primeiro dia de trabalho.

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